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Depressão Sazonal – sentimos o tempo de fora… cá dentro?

A Depressão Sazonal é uma forma de depressão que está diretamente ligada à mudança das estações do ano, nomeadamente no outono/inverno, e sobretudo devido à chegada dos dias mais cinzentos e às alterações nos nossos ritmos e rotinas. Por esse motivo também é conhecida como depressão de inverno, ainda que possa acontecer em outros momentos (na transição primavera/verão).

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#Psicologia ClínicaAtualizado 8 de novembro de 20257 min de leitura173 visualizações
#psicologia#depressão sazonal#saúde mental

Na DSM-5, a Depressão Sazonal não é considerada com um diagnóstico independente, mas um especificador (com critérios definidos) aplicável ao diagnóstico de Perturbação Depressiva Major ou à Perturbação Bipolar, denominado “com Padrão Sazonal” (With Seasonal Pattern).

Que sintomas devem dar-nos o “sinal de alerta”?

Os sintomas associados à Depressão Sazonal característica desta época do ano podem ser:

  • Cansaço e dificuldades de concentração;
  • Tristeza/ansiedade;
  • Variações de apetite e de peso (mais cravings e compulsão);
  • Sensação de vazio e desesperança;
  • Irritabilidade/mau humor;
  • Perda de interesse em atividades sociais;
  • Alterações nos padrões do sono (sobretudo hipersónia);
  • Isolamento, letargia, apatia e falta de motivação.

No caso do padrão de verão (menos comum) temos sintomas “inversos”, tais como:

  • Alterações nos padrões do sono (sobretudo insónia);
  • Perda de apetite;
  • Irritabilidade.

O que explica esta “tristeza de inverno”?

Há uma “tristeza de inverno”, frequentemente desconsiderada, que afeta milhares de pessoas em todo o mundo nesta altura do ano. E porque é que isto acontece? De forma simples: os dias são mais curtos e cinzentos, temos tendência a fechar-nos cada vez mais à medida que a chuva e o frio vão ocupando o seu espaço, e há menor exposição à luz solar, o que se reflete de forma significativa nas nossas emoções.

Foto de K. Mitch Hodge na Unsplash
Foto de K. Mitch Hodge na Unsplash

Depois do verão que nos aquece de fora para dentro, além do começo de alguns dias mais cinzentos, o final deste período (habitualmente marcado pelas desejadas férias) também traz consigo o regresso à rotina e às exigências, que é o “cenário perfeito” para aumentar a produção de cortisol (a hormona responsável por gerir o stress e que, neste caso, potencia os ciclos de stress/ansiedade).

Não obstante, há algumas alterações dos ritmos circadianos devido à redução de exposição solar e também à mudança da hora. Na verdade, o nosso corpo não sabe se é dia/noite pelo relógio, mas sim pelas indicações ambientais como escuridão/luz. Com os dias mais curtos, os nossos corpos recebem menos sinais para regular os padrões de sono e de vigília. Além disso, pelo mesmo motivo, também existe uma menor produção de melatonina (a “hormona do sono", que regula o ciclo sono-vigília, isto é, o nosso ritmo circadiano) e as consequências afetam o nosso bem-estar (ex.: uma pior qualidade de sono/horários de sono irregulares tem um impacto significativo na nossa energia/fadiga, recuperação, regeneração celular, e até no nosso sistema imunitário).

Por último, considerando que luz solar aumenta produção de endorfinas que geram sensação de bem-estar e energia, também importa considerar que, durante este período do ano “mais escuro”, acaba por haver uma menor produção de neurotransmissores de bem-estar (ex.: serotonina, que regula o humor, nos faz sentir mais calmos e focados e previne as emoções “desagradáveis”).

Em suma, apesar de ser uma forma de depressão pouco falada, é importante estar atento aos sintomas (e a quem nos rodeia!), para evitar que se torne mais grave. Se os sintomas persistirem ou interferirem com a funcionalidade/rotina, é sinal que está na altura de procurar ajuda especializada.

Foto de Leonie Vuilleumier na Unsplash
Foto de Leonie Vuilleumier na Unsplash

De que forma podemos combater a Depressão Sazonal?

Há algumas estratégias com suporte na ciência e na investigação que parecem ter um impacto positivo e voltar a trazer de volta a luz de que precisamos! Importa ressalvar que algumas estratégias requerem avaliação e acompanhamento pelos profissionais de saúde devidamente habilitados para o efeito. Entre elas, podemos destacar:

  • Atividade física regular que promove a produção de endorfinas e que também estimula produção de dopamina/serotonina, tendo também um impacto positivo nos padrões de sono e na estimulação do humor;
  • Autocuidado e autocompaixão através de práticas/exercícios neste âmbito que reduzem o stress e promovem a sensação de tranquilidade/bem-estar;
  • Aumentar exposição solar, tentando ter o máximo de tempo ao ar livre durante as horas de luz do dia (pouca luz natural é melhor do que luz artificial!);
  • Horário de sono consistente que vai ajudar a regular os ritmos circadianos;
  • Atividade social, na medida em que a partilha e as relações/interações interpessoais são fundamentais para a sensação de pertença e, consequentemente, para o sentimento de bem-estar geral;
  • Limitar o tempo de ecrãs, sobretudo antes de dormir, devido à hiperestimulação que faz com que o cérebro possa ficar sobreativado com informação (luz, som, texto, e até ativando angústias, reflexões e comparações com outras pessoas, no caso das redes sociais) e possa perturbar significativamente o padrão de sono;
  • Estratégias alimentares e/ou suplementação devidamente orientadas por um profissional capacitado para o efeito (nutricionista, médico) que devem ser ajustadas aos contextos e rotina de cada um e podem incluir:
    • Realizar uma alimentação equilibrada, com inclusão de alimentos específicos na rotina alimentar (ex.: chia/linhaça, peixes, frutos gordos, que podem também ser substituídos/complementados com suplementos como ómega-3, por terem um papel importante no funcionamento cerebral, redução de processos inflamatórios no corpo, regulação do humor e recuperação)
    • Suplementação (quando necessário e mediante avaliação do seu médico ou nutricionista):
      • Vitamina D, uma vez que a redução da luz solar reduz a síntese corporal da vitamina D, e que isso pode afetar o humor;
      • Vitaminas do complexo B, pelo seu papel na produção de serotonina e dopamina, os neurotransmissores que regulam o humor/bem-estar;
      • Magnésio/zinco ou outros minerais que têm funções importantes no sistema nervoso, no relaxamento e no sono (baixos níveis de zinco são frequentemente associados a um humor mais negativo);
      • Probióticos/prébióticos considerando o eixo intestino-cérebro, pois há cada vez mais estudos que relacionam a microbiota intestinal e a produção de neurotransmissores/regulação do humor;
  • Fototerapia (“terapia de luz”), que pelos estudos de evidência e eficácia, é muitas vezes utilizada como primeira linha de tratamento. Ressalva-se que esta intervenção deve ser feita sob orientação médica e após avaliação de alguns fatores. Este tipo de intervenção tem mostrado melhorar o humor, os ritmos circadianos e a energia.
  • Psicoterapia, que pode trabalhar as crenças/comportamentos associados ao inverno que estão na base dos sintomas, mas também pode explorar angústias e sentimentos de vazio/desesperança e apatia, ajudar a estruturar rotinas e hábitos de autocuidado, entre outros.

Referências

  1. Foto de capa por yamasa-n na Unsplash